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ACIDENTE OCORRIDO EM CASCAIS (PORTUGAL)

Extraído da Tribunal da Magistratura, setembro/outubro de 1997, pág. 11

Realmente foi muito interessante a explicação fornecida por um operário português à Companhia Seguradora, que estranhou a forma como o acidente ocorreu. Este caso é verídico, foi julgado no Tribunal de Justiça de Cascais, e a transcrição abaixo foi feita através de cópia do arquivo da Companhia Seguradora.

"Excelentíssimos Senhores:

No quesito n.º 3, da participação de sinistro, mencionei: Tentando fazer o trabalho sozinho, como causa do meu acidente. Disseram em vossa carta que deveria dar uma explicação mais pormenorizada, pelo que espero que os detalhes abaixo sejam suficientes.

Sou assentador de tijolos. No dia do acidente estava a trabalhar sozinho no telhado de um edifício novo de seis andares. Quando acabei o meu trabalho, verifiquei que tinham sobrado 350 quilos de tijolos. Em vez de os levar a mão para baixo, decidi colocá-los dentro de um barril, com a ajuda de uma roldana, a qual, felizmente, estava fixada num dos lados do edifício, no 6º andar.

Desci e atei o barril com uma corda, fui para o telhado, puxei o barril para cima e coloquei os tijolos dentro. Voltei para baixo, desatei a corda e segurei-a com força, de modo a que os 350 quilos descessem devagar (de notar que no Quesito n.º 11 indiquei que meu peso era de 80 quilos).

Devido a minha surpresa, por ter saltado repentinamente do chão, perdi a minha presença de espírito e esqueci-me de largar a corda. É desnecessário dizer que fui içado do chão a grande velocidade. Na proximidade do 3º andar, eu bati no barril que vinha a descer. Isso explica a fratura do crânio e a clavícula partida.

Continuei a subir a uma velocidade ligeiramente menor, não tendo parado até os nós dos dedos das mãos estarem entalados na roldana. Felizmente que já tinha recuperado a minha presença de espírito e consegui, apesar das dores, agarrar a corda.

Mais ou menos ao mesmo tempo, o barril com os tijolos caiu no chão e o fardo partiu-se. Sem os tijolos, o barril pesava aproximadamente 25 quilos (refiro-me novamente ao meu peso indicado no Quesito n.º 11).

Como podem imaginar, comecei a descer rapidamente. Próximo ao 3º andar encontro o barril que vinha a subir. Isto justifica a natureza dos tornozelos partidos e das lacerações das pernas, bem como da parte inferior do corpo. O encontro com o barril diminuiu a minha descida o suficiente, que minimizou os meus sofrimentos, quando caí em cima dos tijolos e felizmente só fraturei três vértebras.

Lamento no entanto informar que, enquanto caído em cima dos tijolos, com dores, incapacitado de me levantar, e vendo o barril acima de mim, perdi novamente a presença de espírito e larguei a corda. O barril pesava mais que a corda e, então, desceu e caiu em cima de mim, partindo-me as duas pernas. Espero ter dado a informação solicitada, do modo como ocorreu o acidente".

Joaquim Antonio Manoel Abrantes.

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